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GBT ou Protocolo Full Mouth Desinfection?

Protocolo Operatório Individualizado na Terapia Periodontal Não Cirúrgica: Evidência Clínica, Tecnologia e Previsibilidade

A Terapia Periodontal Não Cirúrgica (NSPT – Non-Surgical Periodontal Therapy) permanece como a base do tratamento da doença periodontal. Entretanto, sua eficácia está diretamente relacionada à escolha correta dos instrumentos, ao controle do biofilme e, principalmente, à individualização do protocolo clínico.

O relato clínico apresentado por Gianna Maria Nardi demonstra como a integração entre diagnóstico preciso, abordagem minimamente invasiva e tecnologia combinada pode otimizar os resultados clínicos mesmo em pacientes com histórico de reabilitação implantoprotética e perda óssea significativa.


1. Fundamentos da Terapia Periodontal Não Cirúrgica (NSPT)

A NSPT tem como objetivo principal:

  • Remover biofilme e cálculo supra e subgengival;
  • Reduzir a carga bacteriana periodontal;
  • Diminuir inflamação gengival;
  • Interromper a progressão da perda óssea;
  • Criar condições para manutenção periodontal a longo prazo.

A literatura atual reforça que a eficácia do tratamento depende não apenas da instrumentação, mas da capacidade de realizar descontaminação profunda com mínima agressão tecidual.

Nesse contexto, protocolos individualizados tornam-se essenciais.


2. Importância da Individualização do Protocolo

Nem todos os pacientes apresentam:

  • A mesma anatomia gengival;
  • O mesmo padrão de perda óssea;
  • O mesmo nível de sensibilidade;
  • A mesma presença de próteses ou implantes.

A individualização permite:

✔ Maior conforto ao paciente
✔ Melhor ergonomia ao profissional
✔ Redução do trauma aos tecidos
✔ Melhor acesso a áreas complexas
✔ Maior adesão ao tratamento domiciliar

Segundo o relato clínico, a escolha de tecnologias que combinem eficiência e mínima invasividade é determinante para o sucesso da NSPT.


3. Apresentação do Caso Clínico

Paciente masculino, 67 anos, sistemicamente saudável, relatou:

  • Desconforto gengival;
  • Halitose;
  • Sensação de inflamação.

Histórico relevante:

  • Reabilitação implantoprotética prévia;
  • Extração de múltiplos elementos dentários devido a infecção e reabsorção óssea;
  • Implantes nas regiões 1.4, 1.5, 2.4, 2.5 e 4.6.

Achados clínicos:

  • Presença significativa de biofilme interproximal;
  • Eritema gengival generalizado;
  • Pigmentações aderidas;
  • Desgaste incisal anterior;
  • Perda de guia canina;
  • Excursões laterais excessivas.

Achados radiográficos:

  • Reabsorção óssea horizontal em todos os quadrantes;
  • Maior comprometimento nas regiões anteriores.

Esses dados sugerem progressão periodontal crônica com impacto funcional e estrutural.


4. Sequência Clínica do Protocolo Individualizado

4.1 Preparação do Campo Operatório

  • Uso de afastador labial e jugal para melhor visualização;
  • Inserção de limpador de língua acoplado ao sugador;
  • Avaliação do índice de placa com revelador à base de fluoresceína.

A descontaminação da língua é relevante para redução da carga bacteriana total e controle da halitose.

Realizar deplaquing antes da sondagem evita transmigração bacteriana entre sítios periodontais.


4.2 Remoção do Biofilme Supra e Subgengival com Air-Polishing

O protocolo utilizou sistema combinado de:

  • Ultrassom piezoelétrico
  • Air-polishing com pós específicos

Pó de Glicina

Indicado para:

  • Superfícies radiculares expostas;
  • Tecidos gengivais delicados;
  • Descontaminação subgengival;
  • Áreas peri-implantares.

Características:

  • Biocompatível;
  • Micronizado;
  • Baixa abrasividade.

Pó de Bicarbonato de Sódio

Indicado para:

  • Pigmentações extrínsecas resistentes;
  • Descontaminação de superfícies oclusais.

Técnica operatória:

  • Distância de 4–5 mm da superfície dental;
  • Movimento constante do jato;
  • Seleção de bicos angulados (90° ou 120°) conforme necessidade anatômica.

A possibilidade de alternar pós no mesmo dispositivo otimiza tempo clínico e ergonomia.


4.3 Raspagem Ultrassônica em “Soft Mode”

Após o deplaquing, foi realizada raspagem com inserto ultrassônico em modo suave.

Benefícios observados:

  • Redução da amplitude de oscilação;
  • Maior conforto para pacientes sensíveis;
  • Segurança em áreas com próteses e implantes;
  • Menor risco de dano superficial.

A associação entre air-polishing e ultrassom potencializa a descontaminação mecânica.


4.4 Sondagem Periodontal e Tratamento de Bolsas > 5 mm

Após limpeza inicial:

  • Realizou-se sondagem periodontal;
  • Identificação de bolsas maiores que 5 mm;
  • Uso de ponta subgengival estéril e flexível;
  • Aplicação exclusiva de glicina.

A ponta anatômica permite inserção minimamente invasiva, promovendo descontaminação eficaz sem trauma excessivo.

Esse protocolo demonstra eficácia inclusive em bolsas profundas. 


5. Protocolo de Higiene Domiciliar

A educação do paciente foi considerada parte fundamental do tratamento.

Recomendações:

  • Escova interdental substituindo fio dental em áreas amplas;
  • Escova dental personalizada à anatomia;
  • Antisséptico contendo 0,06% CHX + 0,05% CPC;
  • Gel específico para controle químico do biofilme.

Após 14 dias, observou-se:

  • Redução significativa da inflamação;
  • Melhora dos índices clínicos;
  • Maior motivação do paciente.

A manutenção trimestral foi indicada para estabilidade periodontal. 


6. Discussão Clínica

Este caso reforça pontos críticos da periodontia moderna:

🔹 A tecnologia é coadjuvante — o protocolo é protagonista

Sem sequência clínica correta, mesmo equipamentos avançados perdem eficiência.

🔹 Air-polishing subgengival é seguro quando bem indicado

Particularmente com glicina, mostra-se minimamente invasivo.

🔹 Conforto aumenta adesão

Sistemas com aquecimento da água e menor vibração melhoram experiência do paciente.

🔹 Ergonomia profissional importa

A possibilidade de alternar bicos e pós reduz tempo clínico e sobrecarga muscular.


7. Implicações para a Prática Clínica

O protocolo descrito sugere que a integração entre:

  • Diagnóstico visual ampliado,
  • Deplaquing estratégico,
  • Raspagem suave,
  • Tratamento subgengival direcionado,
  • Educação domiciliar personalizada,

resulta em maior previsibilidade clínica.

Em pacientes com histórico de implantes e perda óssea, a abordagem minimamente invasiva torna-se ainda mais relevante.


8. Conclusão

A Terapia Periodontal Não Cirúrgica individualizada representa uma evolução na abordagem periodontal contemporânea.

O relato clínico evidencia que:

  • A associação entre air-polishing e ultrassom é eficaz;
  • A seleção adequada de pós é determinante;
  • A descontaminação profunda pode ser realizada de forma confortável;
  • A educação do paciente é decisiva para manutenção a longo prazo.

Mais do que remover biofilme, o sucesso periodontal está na integração entre tecnologia, protocolo clínico estruturado e adesão do paciente.


Referências

Nardi GM. Individually tailored operating protocol in non-surgical periodontal therapy. Prophylaxis, 2017 case_report_nardi_en_190611_new

Mectron S.p.A. Clinical Case Report, 11/2017 case_report_nardi_en_190611_new