a ciência por trás do procedimento mais desafiador da reabilitação oral
O aumento de rebordo vertical permanece como um dos maiores desafios da implantodontia contemporânea. Mesmo com o avanço dos biomateriais, das técnicas regenerativas e do planejamento digital, o ganho vertical continua limitado por fatores biológicos fundamentais, que não podem ser ignorados ou contornados por soluções simplistas.
Na aula sobre Aumento de Rebordo Vertical em Implantodontia, o Prof. Dr. Marcelo Nunes apresenta uma abordagem profunda, científica e clínica sobre o tema, integrando biologia óssea, manejo de tecidos moles, classificação precisa dos defeitos e técnicas avançadas, com destaque para a técnica BARBELL.
Mais do que ensinar uma técnica, o curso propõe uma mudança de mentalidade clínica: sair do empirismo e atuar com racionalidade biológica.
O primeiro ponto estabelecido de forma categórica é que aumento vertical e aumento horizontal são procedimentos biologicamente distintos. Tratá-los da mesma maneira é um erro conceitual que compromete resultados.
| Ganho Horizontal | Ganho Vertical |
|---|---|
| Osso presente em ambos os lados do defeito | Osso apenas na base |
| Suprimento vascular duplo (vestibular e lingual/palatino) | Suprimento vascular unidirecional |
| Forças de compressão (favoráveis à regeneração) | Forças de tração (desfavoráveis) |
| Fechamento primário mais previsível | Fechamento crítico e determinante |
| Previsibilidade clínica > 90% | Previsibilidade variável: 60–85% |
| Membranas reabsorvíveis geralmente suficientes | Frequentemente exige membranas não reabsorvíveis |
No aumento vertical, qualquer falha no suprimento vascular, na estabilidade do enxerto ou no fechamento do retalho compromete todo o processo regenerativo.
Diferente do ganho horizontal, onde o enxerto recebe irrigação sanguínea de múltiplas superfícies ósseas, no ganho vertical:
A vascularização vem apenas do osso basal e do periósteo
A gravidade atua continuamente contra o enxerto
As forças musculares geram tração constante sobre as suturas
O edema pós-operatório aumenta ainda mais a tensão do retalho
Esses fatores explicam por que micromovimentações mínimas ou fechamentos sob tensão levam a deiscências, exposição de membrana e falhas regenerativas.
Um dos conceitos mais impactantes apresentados pelo Prof. Marcelo Nunes é direto e clínico:
“Todo defeito tridimensional severo começou pequeno.”
Extração dentária sem preservação alveolar
Reabsorção horizontal de 60–80% nos primeiros 6 meses
Reabsorção vertical adicional de 20–40%
Colapso progressivo dos tecidos moles
Formação de defeito tridimensional severo
A literatura e a prática clínica convergem para o mesmo ponto: a preservação alveolar é o procedimento mais previsível e custo-efetivo da implantodontia moderna.
| Defeito | Perda Vertical | Técnica Indicada | Previsibilidade |
|---|---|---|---|
| Leve | 1–3 mm | ROG com membrana reabsorvível | Alta (>85%) |
| Moderado | 3–5 mm | ROG não reabsorvível ou BARBELL | Boa (70–85%) |
| Severo | >5 mm | BARBELL, enxerto em bloco ou distração | Moderada (60–75%) |
Essa classificação não apenas orienta a técnica, mas define expectativa de sucesso, tempo de tratamento e risco de complicações.
O planejamento de qualquer aumento vertical deve buscar restaurar um ambiente biológico favorável à longevidade dos implantes.
| Parâmetro | Mínimo | Ideal |
|---|---|---|
| Tecido queratinizado | 2 mm | 3–4 mm |
| Espessura da mucosa | 2 mm | ≥3 mm |
| Altura supracrestal | 4 mm | 4–5 mm |
| Osso periimplantar | 1,5 mm | ≥2 mm |
Esses valores estão associados a:
Menor incidência de mucosite e peri-implantite
Estabilidade dos tecidos moles
Facilidade de higienização
Resultados estéticos previsíveis
Maior longevidade das reabilitações
A técnica BARBELL, utiliza parafusos expansores especiais para criar uma câmara regenerativa tridimensional estável, mantendo o espaço necessário para neoformação óssea durante todo o período de cicatrização.
Suporte mecânico rígido
Manutenção do espaço regenerativo
Preservação do suprimento vascular periosteal
Redução do colapso do enxerto
Estabilidade tridimensional do biomaterial
Ganho vertical previsível: 3–5 mm
Tempo médio de cicatrização: 9–12 meses
Taxa de sucesso relatada: >90%
Manutenção volumétrica: superior à ROG convencional em defeitos severos
| Técnica | Previsibilidade em grandes defeitos | Morbidade |
|---|---|---|
| ROG convencional | Moderada | Baixa |
| Enxerto em bloco autógeno | Variável | Alta |
| BARBELL | Alta | Menor |
A frase mais enfatizada ao longo da masterclass resume o conceito central:
“Sem passividade do retalho, não há regeneração previsível no aumento vertical.”
No ganho vertical:
O tecido precisa vencer a gravidade
O volume a ser coberto é maior
Qualquer tensão leva à deiscência
Deiscência significa exposição e falha
Descolamento além da junção mucogengival
Liberação completa de inserções musculares
Descolamento lingual cuidadoso
Liberação horizontal do músculo milo-hióideo (mandíbula), capaz de gerar 5–8 mm de ganho de passividade
Principal causa: tensão residual no retalho
Pequena e precoce (<3 mm): ressutura pode ser considerada
Tardia ou extensa: controle de biofilme e cicatrização por segunda intenção
Uma vantagem estratégica da BARBELL é que, mesmo com a remoção da membrana, os parafusos mantêm o espaço regenerativo, reduzindo perdas ósseas.
O aumento de rebordo vertical:
Exige compreensão profunda da biologia
Requer diagnóstico preciso e planejamento rigoroso
Demanda técnica refinada e controle absoluto do fechamento
Não admite improviso nem pressa
Quando bem indicado e executado, transforma casos antes considerados inviáveis em reabilitações previsíveis, funcionais e estéticas.
Nunes, M. PURGO MASTERCLASS – Aumento de Rebordo Vertical em Implantodontia. PURGO, Brasil.