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Esse erro comum mata sua regeneração

Escrito por Implantec Brasil | Jan 17, 2026 3:00:00 PM

O que realmente determina a previsibilidade da ósseointegração em ambientes críticos — e por que muitos enxertos falham mesmo com bons materiais

A regeneração óssea guiada evoluiu drasticamente nas últimas décadas. O que antes era resolvido com blocos ósseos, longos tempos cirúrgicos e resultados incertos, hoje exige compreensão profunda da biologia, leitura crítica da evidência científica e domínio técnico refinado. Essa mudança de paradigma foi o eixo central da PURGO Masterclass, ministrada pelo Prof. Dr. Alexsander Pedrosa, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e referência nacional em regenerações ósseas de alta complexidade.

Neste artigo, organizamos e aprofundamos os conceitos apresentados, transformando o conteúdo da aula em um guia científico-narrativo completo, voltado a clínicos que lidam com defeitos complexos, baixa densidade óssea e ambientes biologicamente desfavoráveis.

O problema: por que a regeneração óssea se tornou mais desafiadora?

A regeneração óssea sempre foi um procedimento sensível. Contudo, três fatores tornaram os casos atuais significativamente mais complexos:

  • Mudança no perfil dos pacientes: maior longevidade, presença de comorbidades, alterações hormonais e maior prevalência de osso tipo III e IV;

  • Aumento da exigência estética: hoje, estética é parte essencial da qualidade de vida, especialmente em áreas anteriores;

  • Proliferação de biomateriais: inúmeras opções, com propriedades físico-químicas e biológicas distintas, nem sempre compreendidas em profundidade.

Segundo o Prof. Pedrosa, o uso de biomateriais introduz variáveis decisivas: variáveis de escolha e variáveis de resposta biológica. Em ambientes críticos, decisões aparentemente pequenas impactam diretamente a previsibilidade do resultado.

Fundamentos biológicos: a origem do conceito de ósseointegração

O entendimento moderno da regeneração óssea começa com a definição de ósseointegração, descrita por Brånemark (1978) como:

“Uma ancoragem baseada em concordância dinâmica entre o tecido ósseo e o biomaterial.”

Essa definição desloca o foco do implante para a interface tecido–material, onde ocorre a verdadeira decisão biológica. Não é apenas o material que importa, mas como o hospedeiro responde a ele.

Historicamente, a chamada era dos blocos ósseos (anos 2000) foi marcada por:

  • Procedimentos extensos e tecnicamente complexos;

  • Alto custo biológico e financeiro;

  • Longos tempos de tratamento;

  • Resultados estéticos e volumétricos imprevisíveis.

A evolução dos biomateriais surge para reduzir essas incertezas — desde que utilizada com critério científico.

O Triângulo da Regeneração: o eixo central do sucesso

Um dos conceitos mais importantes apresentados é o Triângulo da Regeneração, composto por três elementos indispensáveis:

1. Células

  • Células osteoprogenitoras;

  • Células mesenquimais;

  • Osteoblastos;

  • Fibroblastos.

2. Mediadores químicos

  • Fatores de crescimento;

  • Citocinas;

  • Proteínas morfogenéticas;

  • Hormônios locais.

3. Matriz (Scaffold)

  • Suporte estrutural tridimensional;

  • Guia físico para crescimento tecidual;

  • Permeabilidade para células e nutrientes;

  • Estabilidade dimensional durante a cicatrização.

No centro do triângulo: vascularização

Sem suprimento sanguíneo adequado:

  • As células não migram;

  • Os mediadores não chegam;

  • A matriz permanece biologicamente inerte;

  • A regeneração óssea não ocorre.

Esse é o ponto crítico negligenciado em muitos insucessos clínicos.

Metodologia científica: como os dados foram construídos

A evidência apresentada baseia-se em pesquisa clínica com rigor metodológico, incluindo:

  • Aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa;

  • Termo de Consentimento Livre e Esclarecido;

  • Coletas ósseas com trefinas de 2 mm;

  • Avaliações em múltiplos tempos: 2, 6, 8 meses e até 2 anos;

  • Análise histológica, histomorfométrica e estatística;

  • Uso de colorações específicas e luz polarizada.

As lâminas foram avaliadas por anatomistas especializados, permitindo identificar desde tecido conjuntivo em transformação até osso maduro com sistemas de Havers organizados.

Resultados em números: o que a histologia revelou

A análise histomorfométrica do biomaterial The Graft (hidroxiapatita porcina) demonstrou:

  • 2 meses: osteogênese já presente, com intensa celularização e vascularização;

  • 6 meses: mais de 40% do material envolto por osso maduro;

  • 8 meses: entre 43% e 45% de neoformação óssea, com arquitetura óssea organizada.

Comparação com a literatura científica

De acordo com o Consensus ITI, implantes podem ser instalados com aproximadamente 20% de osteogênese.

➡️ Aos 8 meses, o material estudado apresentou mais que o dobro desse valor, indicando maior segurança biomecânica e previsibilidade clínica.

Impactos clínicos, estéticos e psicossociais

Os achados histológicos se refletem diretamente na prática clínica:

  • Melhor manutenção de volume ósseo;

  • Suporte mais previsível aos tecidos moles;

  • Perfis de emergência mais naturais;

  • Menor necessidade de cirurgias secundárias;

  • Redução de morbidade e tempo de tratamento.

Em uma odontologia cada vez mais orientada pela estética, esses fatores impactam diretamente a satisfação e a qualidade de vida do paciente.

PRF: fibrina rica em plaquetas como amplificador biológico

O PRF, segundo os protocolos de Choukroun, foi apresentado como um dos pilares biológicos da regeneração moderna por reunir:

  • Autologia;

  • Atóxicidade;

  • Alta concentração celular;

  • Liberação gradual de fatores de crescimento;

  • Potente estímulo à angiogênese.

Aplicações clínicas do PRF

  • Como membrana biológica;

  • Misturado ao biomaterial para aglutinação das partículas;

  • Proteção do enxerto;

  • Aceleração da cicatrização e redução de edema e dor pós-operatória.

Comparação prática: The Graft versus biomateriais convencionais

Característica Biomateriais convencionais The Graft (HA porcina)
Origem Variável Porcina
Similaridade ao osso humano Menor ~90%
Polaridade Variável Hidrofílica
Osteogênese em 8 meses ~20% >43%
Estabilidade dimensional Variável Alta

Limitações reconhecidas

Os autores e o instrutor destacam:

  • Número limitado de amostras histológicas;

  • Estudos de acompanhamento de 2 anos ainda em andamento;

  • Resultados dependentes do hospedeiro e da técnica cirúrgica.

Não existe biomaterial milagroso. A previsibilidade nasce da integração entre biologia, material, técnica e tempo.

Conclusões dos autores

A regeneração óssea em ambientes críticos é previsível quando:

  • A biologia do hospedeiro é compreendida e respeitada;

  • A vascularização é preservada;

  • Biomateriais com evidência científica são escolhidos;

  • A técnica cirúrgica evita tensão tecidual;

  • O tempo biológico de cicatrização é respeitado.

Como resume o Prof. Dr. Alexsander Pedrosa:

“O que tem que ficar apertado é o nó. Não é o ponto.”

Mais do que uma orientação técnica, essa frase traduz maturidade clínica e respeito aos tecidos.

Referências 

  • Dados histológicos e histomorfométricos apresentados na PURGO Masterclass 2024 – Prof. Dr. Alexsander Pedrosa.