A regeneração óssea guiada evoluiu drasticamente nas últimas décadas. O que antes era resolvido com blocos ósseos, longos tempos cirúrgicos e resultados incertos, hoje exige compreensão profunda da biologia, leitura crítica da evidência científica e domínio técnico refinado. Essa mudança de paradigma foi o eixo central da PURGO Masterclass, ministrada pelo Prof. Dr. Alexsander Pedrosa, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e referência nacional em regenerações ósseas de alta complexidade.
Neste artigo, organizamos e aprofundamos os conceitos apresentados, transformando o conteúdo da aula em um guia científico-narrativo completo, voltado a clínicos que lidam com defeitos complexos, baixa densidade óssea e ambientes biologicamente desfavoráveis.
A regeneração óssea sempre foi um procedimento sensível. Contudo, três fatores tornaram os casos atuais significativamente mais complexos:
Mudança no perfil dos pacientes: maior longevidade, presença de comorbidades, alterações hormonais e maior prevalência de osso tipo III e IV;
Aumento da exigência estética: hoje, estética é parte essencial da qualidade de vida, especialmente em áreas anteriores;
Proliferação de biomateriais: inúmeras opções, com propriedades físico-químicas e biológicas distintas, nem sempre compreendidas em profundidade.
Segundo o Prof. Pedrosa, o uso de biomateriais introduz variáveis decisivas: variáveis de escolha e variáveis de resposta biológica. Em ambientes críticos, decisões aparentemente pequenas impactam diretamente a previsibilidade do resultado.
O entendimento moderno da regeneração óssea começa com a definição de ósseointegração, descrita por Brånemark (1978) como:
“Uma ancoragem baseada em concordância dinâmica entre o tecido ósseo e o biomaterial.”
Essa definição desloca o foco do implante para a interface tecido–material, onde ocorre a verdadeira decisão biológica. Não é apenas o material que importa, mas como o hospedeiro responde a ele.
Historicamente, a chamada era dos blocos ósseos (anos 2000) foi marcada por:
Procedimentos extensos e tecnicamente complexos;
Alto custo biológico e financeiro;
Longos tempos de tratamento;
Resultados estéticos e volumétricos imprevisíveis.
A evolução dos biomateriais surge para reduzir essas incertezas — desde que utilizada com critério científico.
Um dos conceitos mais importantes apresentados é o Triângulo da Regeneração, composto por três elementos indispensáveis:
Células osteoprogenitoras;
Células mesenquimais;
Osteoblastos;
Fibroblastos.
Fatores de crescimento;
Citocinas;
Proteínas morfogenéticas;
Hormônios locais.
Suporte estrutural tridimensional;
Guia físico para crescimento tecidual;
Permeabilidade para células e nutrientes;
Estabilidade dimensional durante a cicatrização.
Sem suprimento sanguíneo adequado:
As células não migram;
Os mediadores não chegam;
A matriz permanece biologicamente inerte;
A regeneração óssea não ocorre.
Esse é o ponto crítico negligenciado em muitos insucessos clínicos.
A evidência apresentada baseia-se em pesquisa clínica com rigor metodológico, incluindo:
Aprovação por Comitê de Ética em Pesquisa;
Termo de Consentimento Livre e Esclarecido;
Coletas ósseas com trefinas de 2 mm;
Avaliações em múltiplos tempos: 2, 6, 8 meses e até 2 anos;
Análise histológica, histomorfométrica e estatística;
Uso de colorações específicas e luz polarizada.
As lâminas foram avaliadas por anatomistas especializados, permitindo identificar desde tecido conjuntivo em transformação até osso maduro com sistemas de Havers organizados.
A análise histomorfométrica do biomaterial The Graft (hidroxiapatita porcina) demonstrou:
2 meses: osteogênese já presente, com intensa celularização e vascularização;
6 meses: mais de 40% do material envolto por osso maduro;
8 meses: entre 43% e 45% de neoformação óssea, com arquitetura óssea organizada.
De acordo com o Consensus ITI, implantes podem ser instalados com aproximadamente 20% de osteogênese.
➡️ Aos 8 meses, o material estudado apresentou mais que o dobro desse valor, indicando maior segurança biomecânica e previsibilidade clínica.
Os achados histológicos se refletem diretamente na prática clínica:
Melhor manutenção de volume ósseo;
Suporte mais previsível aos tecidos moles;
Perfis de emergência mais naturais;
Menor necessidade de cirurgias secundárias;
Redução de morbidade e tempo de tratamento.
Em uma odontologia cada vez mais orientada pela estética, esses fatores impactam diretamente a satisfação e a qualidade de vida do paciente.
O PRF, segundo os protocolos de Choukroun, foi apresentado como um dos pilares biológicos da regeneração moderna por reunir:
Autologia;
Atóxicidade;
Alta concentração celular;
Liberação gradual de fatores de crescimento;
Potente estímulo à angiogênese.
Como membrana biológica;
Misturado ao biomaterial para aglutinação das partículas;
Proteção do enxerto;
Aceleração da cicatrização e redução de edema e dor pós-operatória.
| Característica | Biomateriais convencionais | The Graft (HA porcina) |
|---|---|---|
| Origem | Variável | Porcina |
| Similaridade ao osso humano | Menor | ~90% |
| Polaridade | Variável | Hidrofílica |
| Osteogênese em 8 meses | ~20% | >43% |
| Estabilidade dimensional | Variável | Alta |
Os autores e o instrutor destacam:
Número limitado de amostras histológicas;
Estudos de acompanhamento de 2 anos ainda em andamento;
Resultados dependentes do hospedeiro e da técnica cirúrgica.
Não existe biomaterial milagroso. A previsibilidade nasce da integração entre biologia, material, técnica e tempo.
A regeneração óssea em ambientes críticos é previsível quando:
A biologia do hospedeiro é compreendida e respeitada;
A vascularização é preservada;
Biomateriais com evidência científica são escolhidos;
A técnica cirúrgica evita tensão tecidual;
O tempo biológico de cicatrização é respeitado.
Como resume o Prof. Dr. Alexsander Pedrosa:
“O que tem que ficar apertado é o nó. Não é o ponto.”
Mais do que uma orientação técnica, essa frase traduz maturidade clínica e respeito aos tecidos.